Manoel Carlos Ortolan
 

Presidente da Canaoeste - Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo

   
Artigo

Fusões, incorporações e concentração

MANOEL CARLOS DE AZEVEDO ORTOLAN*

 

A fusão dos bancos Itaú e Unibanco, anunciada nesta semana, retrata bem uma das conseqüências naturais da globalização, ainda mais potencializada em momentos de grandes crises: a incorporação de empresas menores por outras maiores e a fusão de grupos. Ao se unirem, os dois bancos se transformaram em um conglomerado com valor de mercado entre os 20 maiores do mundo e passaram a ser a maior instituição bancária do hemisfério sul.

Segundo o próprio governo, a movimentação que deu origem a Itaú Unibanco Participações é apenas o início de uma nova onda de fusões e aquisições no sistema, que já teve mais bancos. Ao final de 94, por exemplo, eram 243 instituições, número que caiu para 156 em junho deste ano. Ainda nesta semana tivemos o anúncio da compra pela Monsanto da Aly Participações, que controla a CanaVialis e Alellyx, do Grupo Votorantim.

Com o negócio de R$ 616 milhões, a Monsanto entra com força na cana-de-açúcar. A CanaVialis é a maior empresa privada de melhoramento genético de cana do mundo. Já a Alellyx dedica-se ao desenvolvimento de pesquisas com biotecnologia. Seus pesquisadores, por exemplo, estão envolvidos no seqüenciamento genético da bactéria que causa o amarelinho nos laranjais.

E essa tendência para a concentração, natural em todos os setores da economia, deve ser acelerada também no setor sucroalcooleiro. Pelos cálculos da Unica, as cerca de 380 unidades de produção estão hoje sob o comando de pelo menos 200 grupos econômicos. A tendência é que, em dez ou 15 anos, perto de cem grupos controlem o setor.

Essa é uma situação irreversível, já que as empresas tendem a se agrupar para reduzir custos operacionais e serem mais competitivas. E em momentos de crise, como a que estamos enfrentando, o processo de concentração se acelera. As dificuldades dos menores acabam sendo a oportunidade para aqueles que estão mais capitalizados e com planos de expansão. E isso vale para a cana e para grãos como soja, amendoim e milho.

Se por um lado a concentração fortalece o setor, por outro acaba provocando modificações nas relações entre indústria e fornecedores.  Essa nova fase, também marcada pela mecanização, rompe uma tradição de muitos anos e exigirá uma maior profissionalização e organização dos produtores de matéria-prima para a viabilidade da atividade e também para uma relação mais equilibrada nos momentos de negociação.

O ganho em escala será um ponto decisivo para a permanência na atividade e já é preciso se pensar em mecanismos de fortalecimento do fornecedor, como condomínios para a contratação de serviços e negociação da produção. À medida que a concentração avança, torna-se mais remota a possibilidade de pequenas áreas permanecerem economicamente viáveis e a sobrevivência dos pequenos e médios dependerá da sua capacidade de organização. E nesse sentido, as cooperativas, associações e demais entidades de classe são um imprescindível ponto de apoio para o produtor se preparar para a nova realidade.

*presidente da Canaoeste (Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo)